Discriminação. Um dos meus cavalos de batalha, como se diz em francês. Um dos meus temas de predileção. No meu blog, há dias que decido não escrever sobre isso para não parecer tão obsecada. Mas sou. Porque o vivo de uma maneira ou de outra.
Cresci num ambiente priveligiado, confesso. Estudei em escolas francesas em quatro países, em três continentes. Até os meus 10 anos de idade, nunca dei conta da diferença. Minto. Notar, até notei que uns eram loiros de olhos azuis, os cabelos eram lisos e os pentes não partiam nas carapinhas deles, que eles ficavam queimados debaixo de sol. Mas era coisa pouca. Apenas detalhes.
Dei-me conta que as diferenças eram outras quando cheguei à Portugal e passei a ser, não a Jo Ann, mas “macaca”, “parasita” e “chocolate”. Coisa pouca. Afinal, é ‘carinhoso’, né? Ninguém leva mal, é brincadeira. Detesto quando gente chama outros pela cor de pele “ó mulato”, “ó gente de cor”, “ó preto”. E riem-se da piada. Ha, ha. Tão engraçado que isto é. Piada do século.
E essa gente não se dá conta que não. Não é divertido. Não é piada. Temos todos um nome. Favor, de usar. Não sabe, pergunta. A minha cor não é meu nome de baptismo. E nem o governo que decidiu que eu era mixta tipo queijo e fiambre, vai mudar o meu nome.
Então em Portugal, eu era “preta”, evidentemente. Vinda das Africas, ainda era inacreditável que no meu kimbo, não morava na bananeira e não vivia de mandioca.
Mas o que mais me chocou, foi quando em Angola, que é o meu país, única nacionalidade que eu tenho, decidiu tratar-me de... “branca”. Mas afinal, tenho ar de ser zebra? Será que me vêm às riscas ?! Como é que fica?
Estava a caminhar com a minha mãe nas ruas do Luena, no Moxico. A minha mãe distanciou-me, tipo a tropa que já foi, e eu fiquei bem lá atrás. De repente, um grupo de jovens que deviam ter a minha idade, desatou-se a gritar “ó chindele, vem cá !” Já sabia eu que chamavam ‘chindele’ aos estrangeiros. Mas eu?! “Branca”? Afinal? Até o meu povo tratava-me de estrangeira. Clara demais para ser compatriota.
Ainda por cima, o raio do nome que tenho (e que amo!) nem tem um pingo de angolanismo. Não me chamo Ana de Souza como a rainha. O meu nome nem portuguesismo leva. Nem um “Katila” tenho para disfarçar. Não, meu nome é mesmo Jo Ann. Com espaço e tudo. E dois N. Não, não é Joana, faxavor. É Jo Ann. E não é “Jo” também, não te conheço. Detesto quando gente que eu não conheço vem logo com “Jo”. Não, parente. Meu nome é Jo Ann. Na volta ainda aceito um “Joana” porque cansei de estar aqui a aturar engraçadinhos. “Mas esse nome assim... você é mesmo angolana?” com um risinho. Epa, tens aí o meu BI, não? Tás a perguntar mais porquê?!
Não bastasse eu não ter a cor que deveria ter, não ter o nome que deveria ter, ainda sou discriminada, ainda mais raio da minha sorte, porque há alguns anos para cá, decidi que eu não era zebra. Eu não sou nem branca nem negra. Sou mestiça. Agora se sou cafuza ou sei lá quê, são outros quinhentos e nem eu sei que tipo de mistura me foram arranjar.
Mas eu sou mestiça. Ponto. Já tenho problemas que cheguem por ter a cor de pele que tenho, que não me aceitam em lado nenhum, que aqui sou clara demais, ali sou escura demais, que aqui não sou de lá e o caramba quatro. Esses problemas típicos dos mestiços que ninguém quer em lado nenhum, já tenho, obrigada. Não quero problema de mais ninguém.
E o próximo a comentar, a dizer a estupidez (que não deixa de ser estupidez crónica) que por eu declarar-me mestiça, tou a renunciar ao meu lado “preto”, mando-lhes dar uma curva a ver se eu lá estou.
Se eu decidi assumir de vez o facto de ser mestiça (que nem raça é, então isto de raça num tem nada), era exactamente para não renunciar nem às minhas origens negras, nem às minhas origens brancas. Sim, porque para ser mestiça e ter um apelido metade português, metade alemão (mais uma vez, mangop népias. Nem um Ngola para contar história), tenho sangue branco. Não é preciso ter feito anos de genética para se saber isso. Tem muito racista aí à solta que anda s’a esquecer dum ou dois brancos na árvore genealógica deles!
Se eu decidi assumir de vez o facto de ser mestiça (que nem raça é, então isto de raça num tem nada), era exactamente para não renunciar nem às minhas origens negras, nem às minhas origens brancas. Sim, porque para ser mestiça e ter um apelido metade português, metade alemão (mais uma vez, mangop népias. Nem um Ngola para contar história), tenho sangue branco. Não é preciso ter feito anos de genética para se saber isso. Tem muito racista aí à solta que anda s’a esquecer dum ou dois brancos na árvore genealógica deles!
Então pronto. Eu sou mestiça, sem vergonha e sem dor, tenho origens portuguesas e alemãs de parte de pai, namibianas, são tomenses, espanholas e portuguesas de parte de mãe, e assumo toda esta salada russa (não, russos não tenho, só os cabelos) no meu sangue e na minha pele. Uns não são melhor que os outros, todos têm o direito de se afirmarem na minha pessoa.
Quem não compreende ou não quer compreender, AZAR. Eu estou bem comigo mesma, não tenho que me sentir mal por razão nenhuma.
Aviso desde já que quem me chamar por “ó mulata” (o que não sou pois nem pai nem mãe são brancos ou negros, são mestiços também, aguentem!), não respondo. Quem me chamar “dama de cor”, não tou nem aí. Quem se lembrar da piadinha estúpida de gente sem educação “mas assim você és quê? Branca?”, vou fazer de conta que tou além.
Um problema? Olhem a minha cara de preocupada.
(Podia falar mais, do racismo na sociedade angolana, isso de que Negros que sempre insultaram Mestiços de todos os nomes, decidiram que filhos eram mulatos e de cabelo bom, e companhia. Que casar com Mestiço era ascenção social. Nem vou por aí que isto já está comprido demais. Como disse, é um dos meus temas de prefileção. Posso aqui ficar dias e noites, mas também tenho vida.
Poderia falar também do primo Obama que é o primeiro presidente não-branco dos Estados Unidos... E ele é mestiço, mas fica para outra sombra de imbondeiro. O tem já tá a ficar curriqueiro e tenho de ir ali.)
Jo Ann v.
Jo Ann v.

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