Negros vs Mulatos

Li aqui que o tema semanal é a discriminação mas claramente o mano Rogério refere-se a discriminação racial na sua coluna e se por um lado existem outros tipos de discriminação que eu gostava de comentar, por outro, não posso deixar de dar o meu contributo ao algo polémico conjunto de ideias que ele pôs em mesa.

Concordo plenamente quando o mano Rogério diz que vem aí uma nova guerra em Angola, desta vez uma guerra racial, mas na realidade ela já começou!! Se calhar nós somos pessimistas e exageramos quando a chamamos de guerra, mas é neste exagero que transmitimos a nossa preocupação e até consternação quanto a alguns casos criados por esta situação.

Não podia estar mais de acordo quando há algum tempo atrás, li uma reflexão de Mia Couto, em que ele se referia à jubilação demonstrada por nós africanos, aquando da escolha do povo americano em pôr um homem negro (eu preferia dizer homem não-caucasiano, à luz do presente tema) à frente dos destinos da sua nação, ele foi peremptório ao fazer uma pergunta que muitos provavelmente já se perguntaram, “e se Obama fosse africano?” e imediatamente dá seis pontos como possíveis respostas a estas perguntas e uma destas respostas cai que nem luva para este tema, é que apesar de Obama ser negro nos EUA, em África é “apenas” mulato e este seria o seu maior obstáculo, porque poucos são os países no continente que teriam neste momento como líder um mulato, ou mestiço, ou misto, ou seja lá o que preferirem.O que levanta outro debate, os mulatos são como os “sem-abrigo”, não pertencem a terra alguma, nem a África, nem a Europa, nem as Américas e tão pouco a Ásia, porque não podem ser líderes em lado nenhum sem suscitar qualquer tipo de repudio, mas isto é conversa para outra altura.

É uma relacção um pouco estranha entre os negros e os mulatos aqui na terra, o negro sente-se o tal, parece acreditar que África é terra sua por direito, por ser o chamado genuíno. O mulato muitas vezes parece achar que ser mulato é estatuto e acredita mesmo que é um ser superior ao negro, se calhar acreditando ter herdado um pedaço de Q.I. caucasiano que a sociedade considera ser o mais elevado. Parecem viver todos em harmonia mas no fundo há qualquer tipo de descontentamento na consciência de muitos.

A mana Jo tem razão quando diz que por uma questão de conveniência ou nós somos muito claros ou somos muito escuros, eu que sou escuro, em alguns meios passo por negro por não ser claro o suficiente para ser mulato e em outros meios passo por mulato por ter o cabelo demasiadamente “liso” para ser negro. Caso para dizer que quando somos “categorizados” pelo tipo de cabelo que temos, é quando sabemos que vivemos numa sociedade realmente superficial!!

Começa a ficar chata a nossa capacidade de olhar uns para os outros e vermos rivalidade e diferenças, quando na realidade somos todos da mesma espécie, é tempo de reflexão e apesar de todas as acusações contra os americanos até hoje feitas, mais uma vez eles deram um exemplo importante, a todo mundo, é que apesar de até haver países africanos que já o fizeram antes, desta vez, acho que dá mesmo origem a alguma vergonha, cá em África, que o filho de um africano mais facilmente é presidente nos EUA do que na terra do seu pai.

Para acabar, deixo uma pergunta no ar, o que quer realmente dizer raça? Li a seguinte definição num dicionário: “a primeira e maior divisão do género humano; conjunto de indivíduos que conservam entre si, por hereditariedade, caracteres psicofísicos semelhantes; conjunto dos ascendentes e dos descendentes de uma família, de um povo; geração;casta;origem;classe, estirpe;espécie;qualidade...” Não me convenceu! Por isso fica aqui lançado o desafio!

Otto

2 dicas:

  1. Adorei o teu texto e não só. A frase "dá mesmo origem a alguma vergonha, cá em África, que o filho de um africano mais facilmente é presidente nos EUA do que na terra do seu pai" é a mais pura verdade, tão verdade que até dói. É muito mais fácil porem um Obama nos States que irem buscar um mestiço e pôr no Futungo. Ainda temos kilómetros para andar até conseguir isso (epa, seria necessário saber eleger outro presidente também, mas aí são outros 500).
    Acho que o facto de ser o Obama e não a Hillary na Casa Branca outra questão de peso e de mudança. Vivemos num mundo de globalização e já não faz sentido. Nós os seis vivemos em mais de dois países diferentes. A família do Obama tem a nossa cara (todas as cores, tipo Benetton). Mas na volta, já 'tou eu a querer m'esticar ;-)

    ResponderExcluir
  2. Além do mais, quando se fala de raça, muitos usam "raça pura". Quando se fala de albinos, "é porque os pais são de raça pura". Mas isso faz de nós Vonas o quê ? Impuros ?
    Quando chegou a mestiçagem, deixou de ser raça como na teoria quiseram, porque senão teria de ser científico. "Este é 28% branco, 72% negro". Chega um Brasileiro, 28 branco, 36 negro, resto índio. Alguém tinha de vir com a seringa a cada nascimento para saber exactamente que genes vêm de onde.
    E não só. O mestiço negro-branco, não é o mesmo que índio-asiático. E não deixam de ser mestiços.
    Quiseram "facilitar", mas só complicaram a situação.

    ResponderExcluir