
Verdade vos digo. Eu nunca quis crescer. Nunca quis fazer 18 anos. Foi um dia 'normal' no liceu. Não tinha planos para o tal. Não queria mesmo fazer 18 anos. Estava bem com 17, não queria crescer e começar a tomar decisões.
Mas estamos numa sociedade onde é quase normal os pais porem os filhos na rua no dia a seguir... para afrontarem o mundo. Já não morava com a minha mãe há anos, e sei que de qualquer maneira, ela nunca me teria xutado de casa... mas a sociedade quer que aos 18 sejamos "grandes", deixemos de ser adolescentes de um dia para o outro, que devenhamos responsáveis e uélélé mais. Mas eu nunca quis ser grande. E nem é certo dizer que eu queria ir para a univ. Fui porque era o que esperavam de nós. De mim.
Já deram conta que fazemos mais os que os outros esperam de nós do que fazer o que nós realmente queremos ?
Eu quis ser arquitecta. Mas no 10° ano vi que não era com as minhas notas à matemática que eu ia fazer o que quer que seja.
Eu quis ser publicitária. Mas os meus pais disseram : « Em Angola, vais trabalhar onde ?! »
Eu quis trabalhar no turismo. Mas os meus pais perguntaram: « Em Angola ?! »
Eu quis fazer muita coisa. Psicologia nem na minha primeira lista estava. Mas foi o primeiro que os kotas não torceram o nariz. Va savoir.
Fazemos os que os pais querem sem nos perguntarmos se nós queremos. Eu era nova, nova demais. Eu não sabia o que queria da vida, onde queria ir... Tinha medo de tomar decisões, e lá estavam os kotas a insistir para tomarmos a maior decisão das nossas vidas, a decisão que nos iria formar e criar o nosso caminho para vida. Mas nem essa decisão nos deixam tomar como queremos. Eles pensam no nosso futuro, aight, mas será que pensam no que nós temos de passar no presente ? Querem o nosso bem, aight, mas ser o que eles querem que nós sejamos é bom para nós ?
Fazem de conta que nos deram a escolher, mas a verdade é que nem isso foi mesmo verdade. O futuro como nós queremos que se lixe.
Eu fiz a má escolha. Fiz o que os meus kotas deixaram que eu fizesse.
E não cresci. Chichilei, sofri, detestei. Hoje, menos tenho a ver com a p* da psicologia, melhor me safo (lamento os palavrões, vou lavar a boca com sabão de Marseille). E ainda hoje tenho medo. Porque não segui o que queria. Dayam, eu nem sabia o que queria. Deveria ter pedido um gap year, hoje seria mais feliz e teria mais confiança em mim. Faço sempre os que os outros querem.
Mas e eu ?
Tenho medo. Tenho medo de tomar decisões que vão acabar por me destruír de vez, tenho medo de fazer más escolhas (acho que aí já superei tudo, já fiz m* que chega... o sabão azul também já cá está). Tenho medo de crescer. Tenho medo de ser responsável porque nunca nenhuma escolha foi a boa para mim.
Tou quase a trintar (ciblaste !) e tenho um pavor do tempo que passa, que corre, que voa... Vejo as horas a correrem, vejo as estações a mudar, e eu continuo presa num medo que m'impede de avançar, mas o mundo continua de girar.

É como o volante. Eu não conduzo, porque sei que quando se pega um volante, é-se responsável por si, por aqueles que estão no carro, por aqueles que estão nos outros carros. É-se responsável de tudo, e eu não consigo ser 'crescida' para a minha própria vida,
let alone a vida dos outros.
Eu tou atrás do volante, mas o travão tá bem preso.
Estou presa.
E a minha prisão é a p* do medo.
(Pimenta também vale ?)